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ENTRE O USO DA MÁSCARA E A INSEGURANÇA, O QUILERO

PRESS WORKERS

Uma difícil e inevitável discussão nos trouxe a pandemia

Uma discussão pública tem se acalorado nos dias de hoje e se refere ao uso de uma medida preventiva de saúde, que tem sido magicamente relacionada à variação da taxa de criminalidade nas lojas, como se o uso de capuz, capacete, qualquer pano ou nada no seu rosto não bastace para quem deseja cometer um crime, ainda que às custas de ser filmado e registrado pelas câmeras; como se já não bastasse desconfiar de quem entra num negócio a julgar pela aparência, agora devemos também começa a desconfiar de todo aquele que se protege com máscara?
Este tipo de generalização levou-me ao passado recente, onde o ex-Presidente da República expressou: “há um grupo de bandidos que trazem gasóil da fronteira”, ignorando e negando, não só que uma grande maioria dos produtores fronteiriços produz ou sobrevive graças ao consumo desse combustível mais barato, mas também, que seria impossível a existência de um país produtivo, de um Uruguai profundo que dá vida a grande parte da população, se não fosse pelo consumo de bens entrados de contrabando.
Não pretendo proover o crime, nem justificar os grandes contrabandistas que entram em seus contêineres pelo porto -entre as 22h00 às 06h00 da manhã sem a leitura do scanner-, ou os que entram em caminhões pelas rotas e que depois se tornam “empresários”, se vinculam a partidos políticos e promovem candidaturas legislativas para combater aqueles que fazem o mesmo que eles, mas em menor escala. Nestes parágrafos, quero referir-me aos que iam e vinham, desde antes da fundação da pátria, aos que trazem mercadorias ou bens de consumo que lhes dão um lucro mínimo e que lhes permitem gerar uma renda para voltar no dia seguinte e assim satisfazer suas necessidades e as de suas famílias.
Não é segredo que desde a origem da palavra contra-bando (ir contra os bandos ou normas impostas pela Coroa espanhola às suas colônias, por exemplo, para não negociar com os habitantes das terras da Coroa portuguesa) se entendia que havia desobediência, rebelião ou negação do cumprimento de uma norma, mas também sabiam que a partir do momento em que se estabelece uma linha de demarcação, um limite ou uma fronteira, nesse ambiente são gerados diversos modos de vida que buscarão subsistir ante a proibição. Da mesma forma que ladrões mudam, imitam e se transformam, mas não deixam de fazer o que fazem, porque os limites humanos impostos não impedem as pessoas de agirem como agem, por necessidade ou vontade.
Concluindo, devemos deixar de pensar e agir reativamente, de correr atrás dos problemas ou possíveis conflitos que surjam em função das normas jurídicas que se criam e condicionam as ações das pessoas, e passar a pensar preventivamente, proativamente, antecipando conflitos, analisando porque estamos tão preocupados que uma horda de bandidos saia para saquear supermercados com máscaras, batendo ou matando gente, e não nos importamos com o quilero que sai para ganhar seu pão, mesmo à custa da própria vida, mas é tratado pela norma penal, da mesma forma; vamos criar fontes de trabalho, liberar barreiras tarifárias, discutir outras formas de importação que permitam a esses empresários abnegados trabalhar legalmente com dignidade e honestidade para sustentar suas famílias.

Richar Enry Ferreira

Productor audiovisual, documentalista, investigador histórico, redator e reporter.

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