“A obra em referência constitui-se, ela própria, uma referência às pesquisas nos campos inter-transdisciplinares dos estudos socioambientais, da saúde pública, da história da navegação, das interações sociopolíticas, das interações e conflitos transfronteiriços, das relações internacionais, da comunicação, da arqueologia, e dos conglomerados industriais, dentre outros.
O desafio assumido pelo autor, ao imergir em um tema há muito ocorrido, contado e recontado (de modo muitas vezes, de modo superficial e deturpado), e remetido ao “arquivo morto” da história do cone sul da América Latina, exigiu-lhe muita habilidade, senso crítico, rigor metodológico e disciplina.
Nesta trajetória, foram sendo desenvolvidas e integradas muitas estratégias de prospecção e análise de informações, que aproximam o conjunto e os resultados obtidos de uma síntese entre os processos laborais do jornalismo investigativo, da etnografia, da arqueologia do passado recente e da perícia criminalística.
Como fontes de informações, o autor coletou, integrou e problematizou um vasto conjunto de dados originais e primários, desde visitas e entrevistas diretas com moradores, médicos, veterinários e pesquisadores da região atingida pelo fenômeno registrado. Também foi utilizada a compilação e criteriosa revisitação de dados secundários, contidos em documentos gerados por terceiros, como laudos médicos e veterinários, artigos jornalísticos da mídia impressa, relatos de ONGs, bancos de dados da navegação regional e internacional, inquéritos militares oficiais, relatórios de universidades e outras instituições de pesquisa ambiental e saúde pública.
Uma das suas maiores dificuldades foi identificar e relativizar, dentre o acervo de informações reunidas, aquelas associadas com pretensas explicações, de ordem imediatista, gestadas em tom de “esclarecimento” público, mas superficiais, com motivações políticas de ocultamento das origens dos problemas detectados. Esta precaução foi muito salutar ao processo de pesquisa, tanto para evitar a aderência a pontos de vista nebulosos, intencionalmente disseminados junto ao tecido social, como para permitir a identificação de tais atores e suas redes de interesses compartilhados.
Além disso, a exaustiva pesquisa promovida evidencia a similaridade e convergência deste estudo de caso, com diversas outras ocorrências de naufrágios e/ou descartes propositais de cargas tóxicas (químicas, biológicas e/ou radioativas), por parte de empresas e/ou governos do norte global, que fazem questão de difundir, hipocritamente, a sua autoimagem politicamente correta de “desenvolvimento sustentável” e outras falácias do gênero, quando na verdade continuam a descartar todas aquelas instalações, processos, insumos, produtos e resíduos industriais, por entenderem que “as suas” populações não podem ser expostas, remetendo-as para o sul global.
Afortunadamente, iniciativas e esforços, disciplinados e meticulosos como os contidos nesta obra e das pessoas e instituições colaboradoras, trazem à tona grande parte da sujeira (não apenas aquela relativa aos produtos e resíduos químicos, mas especialmente à ética mercenária) que rege significativa parcela dos procedimentos – o modus operante – do “aparelho” tecnológico industrial transnacional, que busca continuamente (re)converter as estruturas, serviços e pessoal dos Estados nacionais em meros agentes e facilitadores da reprodução infinita do capital globalizado, à revelia das potenciais consequências nefastas para a qualidade e condições de vida, humana e não humana, no longo prazo.
Em torno desta(s) iniciativa(s), e por ela(s) estimulados, muitos coletivos de moradores, trabalhadores, estudantes, pesquisadores, jornalistas, ONGs, e diversos representantes de órgãos públicos – realmente motivados pela qualidade de vida de suas populações e ambientes -, vem conseguindo rastrear, compreender e explicitar os riscos socioambientais inerentes aos processos e fluxos de insumos, produtos e resíduos industriais, e seus propósitos de instalação e/ou ampliação, em todo o mundo, mas especialmente no sul global, como parte da estratégia em curso de (neo)colonização cotidiana pelas matrizes transnacionais, pela imposição de um estilo de vida e consumo hegemônico, às custas da depredação e contaminação massiva do planeta.
Obras como esta sinalizam direções alternativas, para além do senso comum mediocretinizado, disseminado e assumido acriticamente. Além da sistematização do grande conjunto de informações compiladas, o autor nos relembra da necessidade de prestarmos atenção aos indissociáveis vínculos dos contextos geopolíticos, passados e presentes, promotores de tais impactos socioambientais, bem como da necessidade de contínua mobilização social, para a efetiva implantação e atuação de sistemas regionais de planejamento e gestão socioambiental, operados com transparência e participação comunitária, na perspectiva de se evitar e reduzir os riscos e impactos advindos dos “pacotes tecnológicos” do aparato industrial transnacional.”
Oceanógrafo. Doutor em Educação Ambiental. Doutorando em Arqueologia (Programa de Pós-Graduação em Antropologia. UFPEL – Universidade Federal de Pelotas). Pesquisador associado ao LASCA – Laboratório de Aprendizagem com Seres, Coisas e Ambientes (Curso de Bacharelado em Arqueologia da FURG – Universidade Federal do Rio Grande), Brasil. E-mail: chingksw@gmail.com