PATRIMÓNIO FRONTERIÇO

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Adaptação à mudança, assimetrias e outras formas de integração

Como país pequeno, sempre fomos dominados pela nossa alteridade (situação, estado ou qualidade que se constitui através de relações de contraste, distinção, diferença) em relação aos nossos dois grandes vizinhos, Argentina e Brasil; segundo alguns autores, o Uruguai foi mesmo construído influenciado pela alteridade das duas grandes potências, que tentamos com grande dificuldade integrar, parar ou bloquear desde as nossas origens.

O ‘Estado tampão’ é um conceito geopolítico atribuído a um país independente, normalmente pequeno, ‘geograficamente localizado entre duas grandes potências com interesses conflituosos; em teoria, a presença do Estado tampão impede as duas potências de se confrontarem ou, pelo menos, reduz o risco’.1 Neste caso, o Uruguai sofreu as tensões bélicas entre a Argentina e o Brasil na primeira metade do século XIX, mas continua a arrastar as contradições económicas do seu estatuto enquanto tal até aos dias de hoje.

Certamente quando se pensou na independência do nosso último Estado, algumas das questões fronteiriças que hoje vivemos não existiam, e outras permaneceram inalteradas ao longo do tempo; mas a verdade é que o cenário político, comercial e social mudou recentemente, e exige mais uma vez a nossa capacidade de adaptação para nos reinventarmos e continuarmos a viver nas fronteiras.

É aqui que surge o dilema: construímos muros, desaparecemos as fronteiras, ou trabalhamos para amalgamar as diferenças históricas, legais e formais com a dura e dura realidade que as pessoas comuns vivem nas zonas fronteiriças?

E como nestes 579 quilómetros de fronteira no rio Uruguai, e 1. 089 quilómetros de fronteira com o Brasil – em grande parte ribeirinhos – “as características físicas da zona fronteiriça, juntamente com uma maior flexibilidade nos procedimentos aduaneiros e de migração, permitiram historicamente que as mobilidades pendulares fossem mais intensas na zona fronteiriça Uruguai-Brasil do que as registadas na zona fronteiriça Argentina-Uruguai (Mazzei, 2012; Bentancor, 2009) “2 , consideramos que o nordeste do país deve ser objecto de uma atenção mais urgente.

O património fronteiriço resultante desta relação, como já foi dito noutras colunas deste espaço #TerceraZona, enfrenta uma fase iminente de mudança, transformação e adaptação à nova realidade global e digital. Para sair dela com sucesso, é necessário agir rapidamente, porque pode sempre ser pior, mas a verdade é que as nossas realidades estão em constante mudança, e enquanto avaliamos o que está a acontecer, analisamos quais as medidas a adoptar e determinamos o que fazer para mudar a situação actual, a realidade já mudou novamente e apresenta-nos outro cenário que precisa de ser avaliado, analisado e alterado para melhorar a qualidade de vida nestas inter-regiões.

Assim, embora não sejam tomadas medidas, surgem outras dificuldades, decisões imprudentes são tomadas devido à falta de informação e ao medo de serem perturbadoras, e estas más medidas agravam a situação; as mudanças que a população esperava acabam por desagradar e gerar maior insatisfação, o que não ajuda a construir a governação, não gera confiança e conduz a mais fracasso e maior vulnerabilidade social.

O que é certo é que não só não existem medidas mágicas, como já foi dito, mas que o conhecimento multidisciplinar e as propostas multifactoriais que apontamos como essenciais devem ser específicas para cada lugar e realidade concreta, procurando mudanças ajustadas às experiências, e não de uma forma abstracta, desumana e generalizada.

Algumas das medidas a serem adoptadas podem não ser as melhores, mas esse é o risco necessário a ser assumido se realmente quisermos mudar.

Tentativa e erro foi o processo que trouxe sucesso aos maiores sábios, porque a realidade social não tem fórmulas rígidas ou teoremas definidos; mas se não inovar, estará predestinado ao fracasso total em termos de políticas de fronteira, porque tudo o que é conhecido já provou ser a fórmula ideal para o fracasso, e foi graças a ela que chegámos à situação actual.

Atingimos o nosso limiar de pobreza, desemprego e falta de competitividade, tão grande que é difícil pensar que poderíamos alguma vez alcançar uma maior diferença cambial que nos afectaria mais. As nossas fronteiras situam-se, portanto, a um nível em que o risco de novas modalidades, métodos ou mecanismos de mercado fronteiriço pode ser tão arriscado como salva vidas, mas o facto é que algumas medidas devem ser tomadas, e em breve.

Ao longo destas doze semanas, demos uma visão sobre o aspecto das fronteiras no terreno; falámos sobre o verdadeiro flagelo do desemprego, e como a situação actual deve ser vista como um ponto de convergência do qual algo de novo deve emergir; Questionámos a tradicional premissa de que o contrabando afecta a economia do país, e que, pelo contrário, nunca ninguém nos disse quanto custa manter uma infra-estrutura estatal corroída pela corrupção; arriscámo-nos a questionar a legalidade da regra imoral que criminaliza os trabalhadores mercantes da região, que castiga aqueles que, mesmo correndo risco de vida, se esforçam por realizar o comércio transfronteiriço.

Por outro lado, sugerimos novas estratégias e planos para o futuro da fronteira costeira, expusemos a dura realidade da diminuição do número de pessoas que trabalham no campo, e na semana passada pormenorizámos claramente a importância da porosidade das nossas fronteiras e como esta condição muito intrínseca de uma “fronteira de paz” aponta para o fracasso dos governantes em lidar com uma frustração estatal que se arrasta há mais de duzentos anos.

Vamos agora levar algum tempo a analisar, repensar e permitir-nos agir; as ideias foram transmitidas, a nossa visão foi claramente expressa, e com absoluta assertividade acreditamos ter contribuído mais do que muitos que ocupam lugares de poder e de tomada de decisões para mudar as coisas nas zonas fronteiriças. Infelizmente ou felizmente (não sabemos), não estamos lá para ter de tomar a decisão de resolver o que precisa de ser mudado; esperemos que aqueles que têm essa responsabilidade actuem como “um bom pai de família”, com bom senso, seriedade e diligência, assumindo com integridade as responsabilidades políticas que cada um tem, seja qual for o seu lugar.

Richar Enry Ferreira

1 – https://elordenmundial.com/que-es-un-estado-tapon/

2 – https://www.teseopress.com/fronteras/chapter/los-espacios-de-fronteras-entre-argentina-brasil-y-uruguay-relaciones-de-cooperacion-entre-los-anos-2002-2016/?jr=on

Productor audiovisual, documentalista, investigador histórico, redator e reporter.

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